NÃO CONSTRUIR UM MIZBÊACH (ALTAR) COM PEDRAS QUE TENHAM SIDO TOCADAS POR FERRO

 "Está escrito na Torá que o altar de YHWH não deve ser edificado com pedras lavradas, pois ao levantar o cinzel sobre elas o homem as profana (Shemót 20:25; Devarim 27:5–6). No sentido primeiro, este mandamento separa o altar da violência, pois o ferro com que se corta a pedra é o mesmo com que se derrama sangue. O altar, porém, foi dado para prolongar a vida por meio da expiação, e por isso não pode ser tocado por instrumento que encurte a vida. Assim, desde o princípio, o serviço de Deus é separado da força humana e da obra agressiva das mãos.


Contudo, a Torá não fala apenas do que é visto, mas também do que é entendido. O altar feito de pedras inteiras ensina que a aproximação de Deus não nasce da habilidade do homem em se moldar a si mesmo, mas da obediência simples e íntegra. O salmista já declarou que o sacrifício aceitável não é a obra elaborada, mas o coração quebrantado e contrito (Tehilim 51:17). A pedra inteira corresponde ao homem que se apresenta diante de Deus sem adornos de justiça própria, sem tentar esculpir em si uma santidade artificial.


Os profetas aprofundaram este ensino quando anunciaram que o problema de Israel não era a falta de cinzel, mas o excesso de dureza. Yechezkel falou em nome de YHWH dizendo que Ele mesmo retiraria o coração de pedra e daria um coração de carne, colocando dentro do povo o Seu próprio Espírito para que andassem nos Seus estatutos (Yechezkel 36:26–27). Aqui se revela que a solução divina não é lavrar a pedra, mas removê-la. O coração de pedra não é corrigido pela força da disciplina exterior, mas substituído pela ação misericordiosa de Deus.


Este mesmo caminho foi ensinado por Yeshua, nosso mestre. Ele não chamou os homens a polirem o coração, mas a nascerem do alto, da água e do Espírito (Yochanan 3:5). Quando ensinou que a reconciliação com o irmão precede a oferta no altar (Matityahu 5:23–24), mostrou que o verdadeiro altar começa dentro do homem. A oferta exterior perde seu valor quando o coração permanece duro, pois Deus não habita em pedra lavrada pela hipocrisia.


Yeshua também declarou que os mansos herdarão a terra (Matityahu 5:5), revelando que a herança prometida não é dada aos que moldam a si mesmos pela força, mas aos que se deixam conduzir pelo Espírito. Por isso Ele disse que os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade (Yochanan 4:23), não confiando na obra das mãos, mas na transformação interior operada por Deus. O Reino, segundo suas palavras, não vem com aparência exterior, pois está no meio do homem (Lucas 17:21).


Os discípulos ensinaram de modo semelhante que o homem fiel se torna santuário de Deus, morada do Espírito Santo (1ª Carta aos Coríntios 3:16), e que o corpo pode ser apresentado como sacrifício vivo e agradável (Romanos 12:1). Tal ensino não anula o altar da Torá, mas o cumpre, pois o corpo se torna altar, o coração é a pedra, e o Espírito é o fogo que consome a oferta. Também entre os piedosos de Israel se dizia, antes da destruição do Templo, que a comunidade fiel seria como uma casa santa composta de homens, um templo vivo para Deus (Regra da Comunidade, 1QS 8:5–6).


Assim, o mandamento de não edificar com pedras lavradas permanece vivo. No altar físico, ele separa o culto da violência. No homem, ele ensina que a santidade não nasce do cinzel do ego nem da dureza da lei recebida apenas por fora, mas da Torá escrita no coração, como anunciou Yirmeyahu (Jeremias 31:33), e do Espírito derramado por Deus, como proclamou Yechezkel. O coração de carne é o altar que YHWH deseja, pois nele não há ferro, não há orgulho, apenas submissão, mansidão e vida."

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